Envelope laranja e branco Impressora laranja e branca Mapa do Site Tamanho da Fonte Ícone de + para aumentar a fonte Ícone de A para retornar à fonte padrão Ícone de + para diminuir a fonte Contraste Ícone habilitar contraste Ícone desabilitar contraste
Logo do Facebook Logo do Flickr Logo do Instagram
Logo do Conselho Regional de Psicologia

“Nossa humanidade tem sido subtraída de nós”

Postado no dia 9 de fevereiro de 2017, às 10:46

Confira entrevista com o presidente do Conselho Regional de Psicologia da 16ª Região (ES), Diemerson Saquetto, sobre a crise que atinge o Estado

20170208-a-psicologia-e-a-crise-no-espirito-santo-2A escalada de violência decorrente da ausência de policiamento nas ruas, intimamente ligada à falta de diálogo e a um processo paulatino de precarização, tornou refém a população capixaba nos últimos dias.

As (os) profissionais da Psicologia no Espírito Santo, em grande parte associadas (os) a órgãos públicos, vivenciam há tempos elementos da crise que agora se agrava no estado. “Não é apenas a categoria policial que vem sofrendo, mas todos os serviços públicos. O que desejamos não é a hierarquização de decisões despóticas, mas o diálogo. Não queremos procurar bandidos ou mocinhos, demonizando um ou outro lado, o que desejamos é o equacionamento de nossas problemáticas, e isto somente será possível pela negociação franca, aberta e democrática”. A avaliação é de Diemerson Saquetto, professor e presidente do Conselho Regional de Psicologia da 16ª Região (ES).

Para ele, a Psicologia em seus múltiplos aspectos pode contribuir com leituras para a saída da crise, a partir de conhecimentos teóricos e práticos, sobretudo nas áreas de Emergências e Desastres, Social e Comunitária. “Esperamos que, ao ser restabelecida a paz pública, possamos fazer alguma coisa a respeito, como projetos de atendimentos às pessoas que sofreram algum tipo de perda ou dano”, afirma.

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) divulgou nota de posicionamento nesta quarta-feira (8), em que aponta que a superação da crise deve se dar para além de policiamento e controle pela força da violência, e se solidariza com o povo do Espírito Santo, especialmente com as psicólogas e psicólogos do estado. A autarquia possui assento no Conselho Nacional de Segurança Pública (Conasp), onde busca conferir visibilidade e aprofundar a relação entre Psicologia e Segurança Pública.

Confira abaixo entrevista completa com Diemerson Saquetto.

Qual leitura você faz desse quadro agravado da crise de violência no Espírito Santo? Quais as causas e suas possíveis consequências?

O Espírito Santo talvez vivencie sua maior crise política, social e econômica da história. O quadro de violência que se agravou nos últimos dias não é resultado de um par de decisões controversas, mas de uma série de sucateamentos que os aparelhos públicos vêm sofrendo ao longo de um já anunciado quadro de instabilidade e precarizações. Não é apenas a segurança pública capixaba que vai mal, mas temos uma saúde pública caótica, seguida da fragilização da educação e da desvalorização dos servidores públicos como um todo.

Pensar nas causas de uma crise nos impede de fazer uma análise binária e irresponsável, mas a hermenêutica de uma complexa gama de fatores conjunturais que levaram à fragilidade do Estado. Não podemos precisar uma causa, como que elegendo um bode expiatório, mas ficam eleitas como causas o conjunto de fatores anunciados, e alguns ainda a se anunciar com o tempo. Quiçá os mais proeminentes desses fatores sejam a falta de diálogo e as precarizações. Os profissionais da Psicologia ligados aos aparelhos públicos e órgãos de controle social têm sentido esta crise há muito tempo, em especial as (os) psicólogas (os) da saúde, da educação, da assistência social, dos direitos humanos, da segurança pública e do sistema socioeducativo. Pensar em consequências seria o mesmo que pensar a já colapsada e fragilizada rede de serviços.

Estamos presos em nossas residências, reféns de decisões que de algum modo nos escapam, fragilizam, despotencializam nossos corpos e afetos. As consequências já se fazem audíveis em nosso pedido de socorro cotidiano, e que acredito não nos afeta apenas como psicólogas (os) do estado do Espírito Santo, mas a todas (os) as (os) psicólogas (os) brasileiras (os). O desemprego e a insegurança, por exemplo, não são exclusividade dos profissionais do nosso estado.

Você entende que a crise tem chances de alcançar outras categorias profissionais?

Já alcançou. Os mais diversos setores e aparelhos públicos já vêm sofrendo há muito tempo. O que ocorre é que muitas vezes as greves dos profissionais da saúde e da educação passam despercebidas pela sociedade. O diferente da crise da segurança pública é que esta afeta a todos independentemente da sua classe social, enquanto a educação e saúde públicas precarizadas atingem as populações economicamente mais frágeis, e isto, às vezes passa despercebido pela mídia, ou silenciada pelos governos.

Como a Psicologia pode contribuir particularmente para o entendimento de saídas para essa crise? O CRP vai fazer algo a respeito?

A Psicologia em seus múltiplos aspectos se coloca a serviço para a análise de conjunturas para a saída da crise, dispondo de arcabouço teórico e prático que pode ajudar na superação do momento em que vivemos. Todavia compreendemos que a Psicologia da área de Emergências e Desastres, assim como a Psicologia Social e Comunitária, são as mais próximas desse campo de enfrentamento. Esperamos que, ao ser restabelecida a paz pública, possamos fazer alguma coisa a respeito, como projetos de atendimentos às pessoas que sofreram algum tipo de perda ou dano, nesta avalanche sem precedentes que atinge o Espírito Santo, ou outra medida que nosso Colegiado do CRP e a Assembleia de Psicólogos acredite ser possível. Conclamamos a todas e todos psicólogas capixabas a entrarem nesta luta e estarem mais próximas do Conselho. Reconstruir a sociedade e a categoria é uma urgência.

A população se encontra fragilizada, desprovida não apenas do sentimento de segurança, mas tenho presenciado os mais confusos sentimentos sendo propagados pelas mídias sociais: nossa humanidade tem sido, aos poucos, subtraída de nós. Com a fragilidade de um dos principais aparelhos repressores do Estado, a sede por violência tem se metastaseado em nossos lares. Os gritos de “bandido bom é bandido morto”, ou da violência a qualquer custo não pode subverter nossas mentes. Estamos à beira de um caos social, e em muitos casos atingidos pela paixão histérica vivida em certo frenesi. O sentimento é de desvelo, de não saber se poderemos sair de casa amanhã, se iremos para o trabalho ou escola. Certo é que prescindimos de tolerância e de temperança.

Profissionais da Psicologia brasileira, peço que se juntem a nós neste momento em que as (os) psicólogas (os) capixabas mais precisam, enviando-nos um pouco de seu afeto e de energia positiva. Psicólogas e psicólogos capixabas, vamos superar essa crise. E depois disso estaremos mais fortes para coletivamente e junto a outras categorias, possamos reconstruir um estado que todos desejamos, melhor. Temos de estar unidos enquanto sociedade e enquanto categoria, junto ao Sindipsi, juntos aos aparelhos de controle social, juntos do Conselho de Psicologia.

Fonte: CFP. 

Os comentários não refletem a opinião do CRP-16 sobre o assunto e são de inteira responsabilidade de seu autor, que poderá responder à Justiça caso cometa injúria, calúnia, difamação ou agressão a outrem e a esta autarquia, conforme os Termos e Condições de Uso do site.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *