#OrgulhoLGBT: CRP-16 promove orientação e formação em favor de direitos e contra a patologização
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#OrgulhoLGBT: CRP-16 promove orientação e formação em favor de direitos e contra a patologização

Postado no dia 11 de julho de 2018, às 12:38

Veja informações e a avaliação do Seminário “Orgulho de ser quem somos: Psicologias que afirmam a libertação dos corpos LGBTs”, realizado pelo Conselho em 28 de junho

Evento acontece no auditório do Mucane, em Vitória

O CRP-16 e o Fórum LGBT do Espírito Santo promoveram o Seminário “Orgulho de ser quem somos: Psicologias que afirmam a libertação dos corpos LGBTs”, no dia 28 de junho, no Museu Capixaba do Negro (Mucane), em referência ao Dia Internacional do Orgulho LGBT. O evento teve a presença de psicólogos, ativistas, estudantes e representantes de movimentos sociais.

A mesa de discussão do seminário abordou questões relacionadas à atuação dos profissionais da psicologia na luta pelos direitos LGBT, apresentando temas sobre a formação profissional, a visibilidade trans e contra a patologização dessas identidades e em favor da libertação desses corpos.

A conselheira-presidenta do CRP-16, Carolina Roseiro, avaliou positivamente o evento e destacou a presença da representante do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Sandra Sposito, na mesa de discussão.

“A composição da mesa foi ótima. Trazer a Sandra, do CFP, foi importante para dar essas informações de como o CFP tem conduzido a defesa das resoluções, a 01 de 1999 e a 01 de 2018. Ela também cumpriu o papel de situar o movimento da psicologia na defesa dos direitos LGBT”, expôs a conselheira.

Carolina também destacou a presença da psicóloga e ativista trans Júlia Santigliani, que discutiu sobre a formação em psicologia e sobre a despatolização das pessoas trans.

“Foi importante também trazer pessoas ligadas a formação, a participação dos movimentos sociais, ressaltando a presença do Ibrat, do Fórum LGBT do Espírito Santo na mesa. Ressaltar também a participação da Júlia, que traz um visão da formação e de como é necessário falar sobre a despatolização, não só no âmbito da Psicologia enquanto área de atuação, mas também na presença de pessoas trans nessa própria atuação”, avaliou.

A presidenta do CRP-16 salientou sobre a participação das/os psicólogas/os no evento. “Destaco também o reconhecimento da categoria de que esses eventos são importantes para fazer essas orientações, de um forma que evite situações que levem ações de fiscalização”.

Estado opressor. A psicóloga Júlia, em sua fala, chamou atenção para a luta contra as opressões por parte do estado, que em sua visão, nasce corrupto e com mecanismo de poder sobre os corpos. Também chamou atenção para o combate  à patologização.

“O estado já nasce corrupto. Então, nós precisamos promover outras formas de enfrentamento que possam atingir o estado e derrubar essas engrenagens, que mantêm esse poder sobre os corpos. Quando falamos em despatolizar, nós dizemos, exatamente, de mudar toda uma série de engrenagens que funcionam sempre para ter o poder sobre esses corpos. O estado não vai mudar. Ele vai ser aquilo ali. Ele pode até proporcionar alguma brecha, alguma abertura, mas, ou ela é curta ou ela não funciona”, analisou.

Julia ainda qualificou o seminário, principalmente pela liberdade de fala concedida a pessoas trans.

“É muito importante dar voz às pessoas trans. Porque existe sempre essa ideia, sempre que se fala de transexualidade e travestilidade, sempre buscam um profissional, uma pessoa cis falando. Não as pessoas trans falando sobre seu existir, sobre sua vivência e isso é muito importante. A literatura na Psicologia é muito importante, assim como toda outra matéria. Nós não podemos deixar de excluir a vivência de ser quem se é, ou seja, a vivência da pessoa trans. Esses eventos também promovem atingir o governo. Porque quando é um órgão apoiando certas questões, gera um incômodo maior do que a pessoa civil ou grupos pequenos. Então, é importante esses órgãos se articularem. Espero que outros promovam atitudes como essa”, frisou.

A representante do CFP, chamou atenção para a presença da categoria na formação do diálogo em torno do enfrentamento a LGBTfobia. “Eu entendo que nós estamos reunidos aqui, o Conselho Regional de Psicologia, juntamente com a categoria de Vitória, os movimentos sociais. Isso representa um diálogo que faz a Psicologia avançar no sentido do reconhecimento das demandas oriundas do movimento social, no sentido da Psicologia se posicionar favorável aos avanços dos direitos e no enfrentamento dos preconceitos da LGBTfobia, no avanço também do acesso que essa população precisa ter as políticas públicas, saúde, educação e mercado de trabalho. Esse evento procurou estreitar esses laços e construir um caminhar junto, em vista desse momento de ampliação de direito que a gente está lutando”, afirmou Sandra Sposito.

Outro palestrante da mesa foi o professor da pós-graduação de Psicologia Institucional da Ufes Jésio Zamboni. Em sua exposição, ele questionou: “esse evento é uma exceção? A quantidade de psicólogas/os que não estão no debate? O discurso passa pela negação do sofrimento? ‘Não sei lidar com esse caso’: tem psicólogas/os que falam isso. Mas o quanto isso não é uma forma de não saber lidar com os nossos próprios valores descriminatórios? O currículo não coloca como prioritário na academia. E por quê? Porque é incomodo. Porque mexe com preconceito. Mas precisamos lidar com isso. Precisamos ter coragem de lidar com isso”.


Antes das palestras da mesa
(foto acima), o público presenciou as falas da coordenadora de Políticas de Diversidade Sexual da Prefeitura Municipal de Vitória, que discorreu sobre a interseccionalidade com a questão racial. E do homem trans Rafael Alcântara. Ele fez um relato das dificuldades e de situações constrangedoras por quais passou ao buscar atendimento na saúde, de profissionais da Psicologia, inclusive.

“Não quero ser visto como homem trans. Mas sim como uma pessoa. Com um ser humano”, cravou.

Confira abaixo a trechos da palestra da representante do CFP no evento

“A Psicologia sempre foi um profissão bastante aliada aos poderes hegemônicos. A Psicologia sempre foi muito parceira do capitalismo, em algumas práticas. Na lógica de categorizar e colocar as pessoas em padrões de inteligência, de organização mental, capacidade laborais, ato inato. O ato inato era para quê? Era para se adaptar a simplicidade da sociedade capitalista. Então, olha que ciência legal a Psicologia. Ela estava lá, vivendo para colocar o homem certo no lugar certo. Ela estava lá para dizer quem era inteligente, quem era burro. Ela estava lá pra dizer, olha ‘esse pessoal é sem jeito, esse pessoal é legal’. A Psicologia fazia o serviço sujo do capitalismo, de estigmatizar as pessoas com assinatura da ciência. O capitalismo tem uma tendência a gostar muito da Psicologia. É um sistema hegemônico, gosta bastante desse papel, que nós fizemos.

E por que tem tanto emprego para psicóloga/o? Não é porque nós estamos falando dessa Psicologia de transformação e revolução. Nós estamos falando da Psicologia de adaptação, da civilização e da imaginação. É essa Psicologia que tem o ‘boom’. Não é desta que nós estamos falando. Mas por uma questão de luta interna, esta Psicologia que vem para transformar, revolucionar, emancipar as pessoas. Por isso nós estamos aqui falando com vocês. Esse é um motivo histórico, o primeiro motivo, a Psicologia vai perdendo o seu papel ‘adaptacionista’ e vai ganhando papel de transformação.

O segundo motivo, é um pouco mais recente. É a disputa da subjetividade, enquanto objeto de estudo, a subjetividade, tem pessoas que vivem do comportamento, o inconsciente. Vamos sintetizar o objeto da Psicologia pelo estudo da subjetividade.

A subjetividade é tanto quanto ‘um guarda-chuva’ que determina esse objeto. Essa subjetividade está em disputa, em disputa de ser, por exemplo ‘você é assim, por tais e tais motivos’. Tem muitos segmentos na sociedade organizada. Principalmente de caráter religioso que quer responder, ‘por que somos assim’?. A Psicologia é a ciência que tem que responder ‘por quê somos assim?’ Nós temos condições de dizer por que as pessoas são assim. E mais, não temos condições de construir com as pessoas, autonomia e emancipação para que elas possam se fazer diferentes com a relação com mundo. Que elas não precisem mais serem submissas com a relação com o mundo. Isso é revolucionário. O que os outros estão dizendo é aquela velha história de exploração e submissão: ‘vocês são assim porque um gene determinou’; ‘vocês são assim porque em outra vida aconteceu tal coisa’; ‘vocês são assim porque a condição de vida é assim’; ‘vocês são assim porque a condição de vida não dá para mudar’. Isso é natural, nós estamos com a disputa, a grosso modo, são visões de autonomia e emancipação que nós defendemos e visões de adaptação e submissão defendidas por esses grupos. Então, a submissão que estamos falando é essa visão hétero normativa. Não podemos questionar esse padrão, ele é natural, é natural que vocês sejam assim, ou que queiram ser assim.

Então, quando nós vamos desconstruindo este padrão, estamos promovendo transformações, não só no indivíduo, mas na sociedade. Transformar esses padrões, significa retirar pessoas de posições de poder. E essas pessoas nas posições de poder estão vorazmente nos atacando agora. Não dá para nós sermos ingênuos que não há um campo de disputa. Nós somos, nesse campo de disputa, pessoas nas trincheiras. Pessoas LGBTs estão nas trincheiras. Não porque nós escolhemos, mas porque nos colocaram. Não porque a psicologia quis ir lá discutir, com os evangélicos fundamentalista e a psicologia cristã e outro nomes. Eles nos colocaram lá. Nos questionaram. Querem invalidar enquanto essa proposta de ciência. Querem nos esconder enquanto pessoas LGBT.

O que eu quero dizer com esse processo de transformação em relação às questões LGBT, é o entendimento de que ‘eu não nasci mulher. Disseram que eu sou mulher. Eu não nasci lésbica. Disseram que eu sou lésbica. Eu não nasci branca. Disseram que eu sou branca. Eu não nasci brasileira’, disseram. Quer, no sentido de escolha. Eu não escolhi essas categorias que definiram minha subjetividade. De repente o conhecimento que psicologia, as ciências humanas, os movimentos sociais trazem, que é revolucionário, que é dizer assim ‘olha só, eu não sou isso, eu fui construído, fui performatizado desse jeito. Logo, eu posso não ser, eu posso ser outra coisa’.

É a questão do não lugar, eu tenho um lugar para o que não é homem e mulher. O que não é transsexual e travesti. Não temos um não lugar, a gente está inventando esses lugares. Isso está incomodando muita gente. Os não binários, os gêneros fluidos, gêneros neutros, assexuados, intersexos, queers. Nós estamos inventando, entre lugar, não lugares. Estamos explodindo a naturalização dos gêneros, os conceitos que nos definiram de dentro para fora, pois vieram de fora para dentro. Tentaram nos matar, nos prender, nos enjaular. Eles tentaram fazer de tudo historicamente. Nós fazemos isso. Nós temos o poder de agir sobre o mundo, maior do que eles querem que tenhamos.

Devemos pensar no cosmo LGBT, na nossa existência enquanto potência, enquanto máquina de guerra. A gente não quis ser isso, mas a gente é isso. Porque a gente existe na diversidade, na diferença, na dor. A gente insiste. Historicamente parece que a gente não vai conseguir. Nós estamos ganhando, pode não parecer. Por que? Porque nós conseguimos estar aqui. Hoje, as pessoas trans conseguem ir lá no cartório e ter seu nome social.

Porque a psicologia consegue. Este ano publicaram a Resolução 01/18, afirmando antes do CID, que a transsexualidade e a travestilidade não são doenças. Não são desvios. Não são incongruências. Dizem que, o modo como essas pessoas vão construindo a sua autonomia de viver sobre si, é o que tem que ser respeitado. Então, jamais vamos aceitar uma psicóloga que diga que um homem trans é muito estranho que ele queira determinado lugar. Jamais poderemos aceitar esse tipo de fala”.

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